Leia nosso post "O Brasil está envelhecendo. Estamos preparados para cuidar?"

O avanço da longevidade transforma a população brasileira e coloca em evidência desafios relacionados à autonomia, às desigualdades, à formação de cuidadores e ao acesso a serviços de saúde

O Brasil está passando por uma transformação demográfica profunda. Em poucas décadas, o país deixou de ter uma população predominantemente jovem e passou a conviver com um crescimento expressivo do número de pessoas idosas. Essa mudança, resultado da queda da fecundidade e do aumento da expectativa de vida, já produz efeitos sobre as famílias, os serviços públicos e a organização das cidades.

Segundo o Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha aproximadamente 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,6% da população. Em 2010, esse grupo representava 10,8% dos brasileiros.

O crescimento da população idosa é uma conquista associada aos avanços nas condições de vida e de saúde. Mas também exige que o país considere, em suas decisões, uma população cada vez mais diversa em idade, necessidades e experiências.

Envelhecer no Brasil não é igual para todos

A expectativa de viver mais anos não significa que todas as pessoas tenham as mesmas condições para desfrutá-los. Renda, escolaridade, raça, gênero, território e acesso aos serviços de saúde influenciam as trajetórias de envelhecimento.

As desigualdades se manifestam de diferentes formas: nas condições de moradia, na mobilidade urbana, no acesso a tratamentos e na possibilidade de contar com apoio quando surgem limitações funcionais.

O Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), coordenado pela Fiocruz, ajuda a compreender parte dessa realidade. Uma análise publicada na Revista de Saúde Pública, com dados da linha de base do estudo, identificou que 23,2% dos participantes com 50 anos ou mais relatavam dificuldade em pelo menos uma atividade básica da vida diária, como tomar banho, vestir-se ou locomover-se dentro de casa.

Entre os participantes que relatavam alguma dificuldade, 35,1% recebiam ajuda de outra pessoa. Os resultados mostram a importância de investigar tanto as necessidades de cuidado quanto a disponibilidade de apoio para atendê-las.

Esses dados não significam que o envelhecimento esteja necessariamente associado à perda de autonomia, mas revelam, sobretudo, que as necessidades variam e que as políticas de cuidado precisam considerar essa diversidade.

O cuidado também tem uma dimensão social

No Brasil, grande parte do cuidado cotidiano é assumida pelas famílias, frequentemente por mulheres. Na mesma análise do ELSI-Brasil, 72,1% das pessoas responsáveis pelo cuidado eram mulheres. Entre os cuidadores identificados pelo estudo, 25,8% relataram ter interrompido o trabalho ou os estudos para exercer essa função.

Esses números mostram que o cuidado envolve consequências que ultrapassam o ambiente doméstico. A ausência de redes de apoio e de serviços adequados pode comprometer a renda, a vida profissional e o bem-estar de quem cuida, além de afetar as condições de assistência oferecidas a quem necessita de ajuda.

A formação de cuidadores, a ampliação de serviços e o desenvolvimento de políticas de apoio são questões centrais para uma sociedade que envelhece.

E quando o cuidado envolve doenças graves?

As necessidades de cuidado também aparecem em situações que não dependem da idade. Pessoas de diferentes faixas etárias podem enfrentar doenças graves e condições de saúde que ameaçam ou limitam a continuidade da vida.

Nesses casos, os cuidados paliativos têm um papel importante. Seu objetivo é prevenir e aliviar o sofrimento, controlar sintomas e oferecer apoio às pessoas e às suas famílias. Essa abordagem pode começar precocemente e ser integrada a outros tratamentos, sem se restringir aos últimos dias de vida.

Em 2024, ao anunciar a Política Nacional de Cuidados Paliativos, o Ministério da Saúde divulgou a estimativa de que cerca de 625 mil pessoas necessitavam dessa assistência no Brasil.

Instituída naquele ano, a política estabeleceu diretrizes para organizar e ampliar os cuidados paliativos no Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo formação profissional, educação da população e integração entre diferentes serviços de saúde.

A criação desse marco representa um avanço importante. Sua implementação, porém, depende de estrutura, financiamento, profissionais qualificados e articulação entre os diferentes níveis de atenção.

Preparar o país para viver mais

O envelhecimento populacional já faz parte da realidade brasileira. Seus efeitos alcançam a saúde, a assistência social, a previdência, o planejamento urbano e as relações de trabalho e cuidado.

Compreender essas mudanças exige pesquisas capazes de acompanhar a população ao longo do tempo, identificar desigualdades e avaliar a efetividade das políticas públicas. Exige também educação e informação acessível, para que profissionais, famílias e cidadãos possam tomar decisões fundamentadas.

O desafio brasileiro é garantir que o aumento da longevidade seja acompanhado por condições de vida dignas, respeito à autonomia e acesso a cuidados adequados, inclusive diante de doenças graves e no final da vida.

A preparação para essa realidade depende de decisões que precisam ser tomadas no presente.